Tecnologias integradas reforçam caminhos para uma agropecuária mais produtiva e sustentável

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Tecnologias integradas reforçam caminhos para uma agropecuária mais produtiva e sustentável

Tecnologias integradas reforçam caminhos para uma agropecuária mais produtiva e sustentável

A busca por sistemas de produção mais resilientes, produtivos e sustentáveis foi o foco do painel realizado na manhã de quarta-feira (24), durante o X Simpósio Nacional sobre o Cerrado e III Simpósio Internacional sobre as Savanas Tropicais. O evento foi promovido entre os dias 23 e 25 de junho, na Universidade de Brasília (UnB).

As palestras mostraram como diferentes tecnologias e estratégias, desde a melhoria de pastagens e os sistemas integrados até a saúde do solo e o manejo do carbono, podem contribuir para enfrentar os desafios da produção agropecuária nas savanas tropicais. A moderação ficou a cargo do pesquisador da Embrapa Cerrados, Robélio Marchão.

Palestras do Painel “Sistemas de produção agrícola sustentáveis e resilientes”

A adoção de tecnologias é um dos principais desafios para ampliar a sustentabilidade da pecuária nas savanas tropicais. O tema foi abordado pela pesquisadora Alejandra Marín, da Aliança Bioversity International e do Centro Internacional de Agricultura Tropical (CIAT/CGIAR), durante o evento.

Na palestra “Inovação sustentável na pecuária em savanas tropicais: das evidências às prioridades dos atores envolvidos”, Marín apresentou pesquisas desenvolvidas na Colômbia, país que possui cerca de 17 milhões de hectares de savanas tropicais, dos quais 4,6 milhões apresentam alto potencial para a intensificação sustentável da pecuária.

A pesquisadora destacou o trabalho do CIAT no desenvolvimento de forrageiras melhoradas para aumentar a produtividade animal e das pastagens, ampliar a resiliência às mudanças climáticas e reduzir a pegada de carbono dos sistemas pecuários. Segundo ela, estudos conduzidos pela instituição demonstram que pastagens melhoradas podem contribuir significativamente para tornar a atividade mais sustentável.

Um dos destaques da apresentação foi um estudo sobre a adoção de práticas de pecuária de baixa emissão de carbono. Os resultados mostraram que, enquanto pesquisadores e formuladores de políticas costumam priorizar a mitigação das emissões de gases de efeito estufa, os produtores estão mais preocupados com a adaptação às mudanças climáticas e com a viabilidade econômica das tecnologias.

“Os resultados de nossas pesquisas mostram que é fundamental incluir a perspectiva dos produtores na tomada de decisão. Esse é o principal objetivo das metodologias que estamos desenvolvendo atualmente: compreender o contexto local e considerar tanto as oportunidades quanto os desafios enfrentados por eles na adoção de novas práticas”, afirmou.

Marín ressaltou que já existem evidências científicas consistentes sobre os benefícios das tecnologias sustentáveis para a pecuária tropical. Segundo ela, o próximo passo é acelerar sua implementação no campo, fortalecendo a atuação conjunta entre produtores, setor privado, governos e demais atores das cadeias produtivas. “Temos evidências, mas precisamos avançar para a implementação”, concluiu.

Produtividade e sustentabilidade no campo

A trajetória e a contribuição dos sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) para a produção agropecuária sustentável foram abordadas pelo pesquisador Lourival Vilela durante sua palestra. Pesquisador da Embrapa Cerrados há 50 anos e responsável pela implantação do experimento mais antigo de Integração Lavoura-Pecuária (ILP) do Brasil, iniciado em 1991, Vilela relembrou a evolução desses sistemas no País ao longo das últimas décadas.

Segundo ele, as primeiras experiências surgiram a partir da iniciativa dos próprios produtores rurais. “Começamos o trabalho com ILP inicialmente em fazendas, depois fomos para as áreas experimentais”, contou. Durante a apresentação, o pesquisador mostrou a evolução dos sistemas integrados desde os anos 1970, quando áreas eram abertas para cultivo de arroz consorciado com braquiária e recuperação de pastagens degradadas.

Na década de 1990, pesquisas conduzidas pela Embrapa Cerrados ajudaram a consolidar o conceito de rotação lavoura-pasto e os efeitos sinérgicos dessa integração. Nos anos 2000, foi desenvolvido o Sistema Santa Fé, baseado no uso de forrageiras com duplo propósito, e, na década seguinte, houve a incorporação do componente florestal, dando origem aos atuais sistemas de ILPF.

Vilela explicou que o sucesso desses sistemas depende do equilíbrio entre os componentes solo, planta e animal, favorecendo um balanço positivo de carbono e melhorias nos atributos físicos, químicos e biológicos do solo. Entre os benefícios da integração, o pesquisador destacou a melhoria da saúde do solo, a maior eficiência na ciclagem de nutrientes, a redução da incidência de pragas e plantas invasoras, a mitigação das emissões de gases de efeito estufa e o aumento da produção de grãos, forragem, carne e leite.

Um dos pontos enfatizados foi a importância das gramíneas forrageiras nos sistemas integrados. Segundo ele, essas plantas desempenham papel fundamental na formação de palhada, na proteção do solo e no desenvolvimento de sistemas radiculares profundos. “Sou uma pessoa apaixonada por raiz. Não posso ver um pasto sem querer abrir uma trincheira. Temos casos de raízes de capins do gênero Panicum chegando a seis metros de profundidade”, relatou.

Segundo ele, resultados de pesquisas conduzidas pela Embrapa em parceria com produtores mostraram que a integração lavoura-pecuária aumenta significativamente a eficiência no uso dos nutrientes. De acordo com Vilela, quando comparados sistemas exclusivamente agrícolas com áreas em rotação lavoura-pastagem, a eficiência média de utilização dos nutrientes foi 2,7 vezes maior nos sistemas integrados.

O pesquisador também destacou que a adoção da ILPF representa uma alternativa para aumentar a produção sem a necessidade de abertura de novas áreas. Dados apresentados pelo pesquisador indicam que o Brasil possui cerca de 28 milhões de hectares de pastagens degradadas com potencial para conversão em sistemas produtivos mais intensivos, sendo que aproximadamente metade dessa área está localizada no Cerrado.

Como exemplo do impacto da tecnologia, Vilela apresentou a trajetória da Fazenda Santa Brígida, em Ipameri (GO), referência nacional em ILPF. Segundo ele, a propriedade passou de uma situação de pastagem degradada para um sistema altamente produtivo, gerando mais empregos e renda. “Saímos de um pasto degradado, com dois vaqueiros, para uma propriedade com cerca de 20 pessoas trabalhando e intensa movimentação de caminhões transportando grãos. Olhem a riqueza que isso gera”, destacou.

Ao encerrar a palestra, o pesquisador defendeu a ampliação da adoção dos sistemas integrados como estratégia para o futuro da agropecuária brasileira. “Se há muitos anos abríamos o Cerrado derrubando a vegetação, hoje não há mais espaço para isso. Precisamos romper essas correntes do atraso e acelerar a adoção de sistemas mais eficientes e sustentáveis”, concluiu.

Brasil na vanguarda da avaliação da saúde do solo

A incorporação de indicadores biológicos às análises de rotina está transformando a forma como a saúde do solo é avaliada no Brasil. O tema foi apresentado pela pesquisadora da Embrapa Cerrados, Ieda Mendes, durante o Simpósio. Na palestra “Da química à biologia: como o Brasil avançou nas avaliações em larga escala de saúde do solo”, a pesquisadora mostrou como a tecnologia de Bioanálise de Solos (BioAS) está ampliando a capacidade de diagnóstico dos solos agrícolas ao integrar indicadores biológicos às análises químicas tradicionalmente utilizadas pelos produtores.

A pesquisadora destacou que, durante décadas, as análises de solo estiveram concentradas principalmente nos aspectos químicos. “O solo é um organismo vivo. Ele pode adoecer e também pode se recuperar. Faltava às análises de rotina uma forma de avaliar esse componente biológico”, explicou. A BioAS surgiu para preencher essa lacuna. A metodologia incorpora duas enzimas (beta-glicosidase e arilsulfatase) que atuam como indicadores do funcionamento biológico do solo. Elas permitem avaliar a capacidade do sistema de ciclar nutrientes, armazenar carbono e sustentar a atividade microbiana, fatores diretamente relacionados à produtividade e à resiliência das lavouras.

Durante a palestra, Ieda apresentou resultados de experimentos de longa duração que demonstram a relação entre saúde do solo e desempenho agrícola. Em áreas cultivadas com braquiária em sucessão à soja, foram observados ganhos expressivos de produtividade em comparação com sistemas sem plantas de cobertura. Além do aumento da produção, solos biologicamente ativos apresentaram maior eficiência no uso de nutrientes, melhor capacidade de retenção de água e maior resistência aos efeitos de veranicos e períodos de estresse hídrico. “Hoje sabemos que não basta apenas corrigir a fertilidade química. A maquinaria biológica do solo precisa estar funcionando para que o sistema expresse todo o seu potencial produtivo”, afirmou.

Um dos diferenciais da BioAS é a capacidade de identificar mudanças na qualidade do solo antes que elas se reflitam nos teores de matéria orgânica ou na produtividade das culturas. As enzimas utilizadas na metodologia funcionam como sensores biológicos, respondendo rapidamente às alterações provocadas pelo manejo. Dessa forma, produtores podem acompanhar se o solo está saudável, em recuperação, adoecendo ou degradado, permitindo intervenções mais rápidas e eficientes.

A pesquisadora apresentou exemplos de áreas onde a introdução da braquiária promoveu aumento significativo da atividade biológica em poucos meses, enquanto os teores de matéria orgânica permaneceram praticamente inalterados. Segundo ela, isso demonstra o potencial da ferramenta para monitorar processos de recuperação de solos.

Atualmente, 33 laboratórios comerciais integram a Rede Embrapa de Bioanálise de Solos e já oferecem essa tecnologia aos produtores. Os resultados são apresentados em índices que avaliam funções essenciais do solo, como ciclagem, armazenamento e suprimento de nutrientes. Ieda também destacou o lançamento da Plataforma de Saúde do Solo durante a COP30, realizada em Belém. A iniciativa reúne informações de diferentes regiões do país e constitui o maior banco público de dados sobre saúde do solo do mundo.

“Hoje o laudo da saúde do solo no Brasil deixou de ser baseado apenas no conceito mineralista. Agora é possível avaliar a capacidade do solo de funcionar, armazenar nutrientes e ciclar nutrientes. É uma tecnologia única no mundo”, ressaltou. Para a pesquisadora, a integração entre química e biologia representa um novo capítulo na agricultura brasileira e uma ferramenta estratégica para aumentar a produtividade, a sustentabilidade e a adaptação dos sistemas produtivos às mudanças climáticas.

Plantio direto e estoques de carbono do solo

A adoção do sistema plantio direto pode recuperar os estoques de carbono do solo, aumentar a resiliência dos sistemas produtivos e contribuir para uma agricultura de baixa emissão de carbono. A avaliação foi apresentada pelo pesquisador João Carlos de Moraes de Sá, presidente da Comissão Técnica da Federação Brasileira do Sistema Plantio Direto, durante o evento.

Na palestra “Manejo do Carbono Visando Sistemas de Produção Resilientes, Rentáveis e de Baixa Emissão de Carbono”, o pesquisador apresentou resultados de um estudo realizado entre 2020 e 2025 em 63 propriedades rurais dos biomas Cerrado e Mata Atlântica. O trabalho comparou áreas de vegetação nativa, plantio direto e preparo convencional do solo.

Os resultados mostraram que a conversão da vegetação nativa para sistemas agrícolas convencionais reduziu em 38,1% os estoques originais de carbono no Cerrado e em 45,8% na Mata Atlântica. Por outro lado, áreas manejadas sob sistema plantio direto apresentaram elevada capacidade de recuperação. Em sete dos 13 grupos avaliados, os estoques de carbono foram iguais ou superiores aos encontrados na vegetação nativa.

Segundo Sá, a diversificação dos sistemas produtivos e o uso de plantas de cobertura são fundamentais para esses resultados. Ele destacou a importância da braquiária na agricultura brasileira e afirmou que sistemas integrando gramíneas e leguminosas podem aumentar significativamente a incorporação de carbono ao solo.

“Na minha opinião, uma das maiores revoluções da agricultura foi a introdução da braquiária nos sistemas de produção. Sem ela, estaríamos em uma situação muito difícil. A braquiária transformou o cenário produtivo. Seu consórcio com culturas como milho, sorgo e leguminosas favorece o desenvolvimento de sistemas radiculares vigorosos e profundos. Em nossos estudos, registramos um aumento de 40% na incorporação de carbono ao solo por meio dessas raízes”, afirmou.

Ao encerrar a palestra, Sá defendeu a ampliação de práticas conservacionistas como estratégia para aumentar a produtividade e reduzir a pressão por abertura de novas áreas agrícolas. “Podemos produzir alimentos em harmonia com a natureza, sem derrubar um pé de árvore. Temos conhecimento e tecnologia para produzir mais com menos”, concluiu.

Fonte: Embrapa Cerrados