{"id":2049,"date":"2023-09-19T11:51:30","date_gmt":"2023-09-19T15:51:30","guid":{"rendered":"https:\/\/fundapam.com.br\/?p=2049"},"modified":"2023-09-19T11:51:31","modified_gmt":"2023-09-19T15:51:31","slug":"artigo-el-nino-na-agricultura-estrategias-para-enfrentar-um-velho-conhecido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fundapam.com.br\/site\/noticias\/artigo-el-nino-na-agricultura-estrategias-para-enfrentar-um-velho-conhecido\/","title":{"rendered":"Artigo &#8211; El Ni\u00f1o na agricultura: Estrat\u00e9gias para enfrentar um velho conhecido"},"content":{"rendered":"\n<p>El Ni\u00f1o \u00e9 um fen\u00f4meno clim\u00e1tico natural caracterizado pelo aquecimento anormal das \u00e1guas do Oceano Pac\u00edfico Equatorial. Ele tem influ\u00eancias diretas no clima e pode trazer uma s\u00e9rie de efeitos indesejados, inclusive na agricultura.<\/p>\n\n\n\n<p>Causado por uma intera\u00e7\u00e3o complexa entre os ventos, as correntes oce\u00e2nicas e a atmosfera, o fen\u00f4meno El Ni\u00f1o tem uma recorr\u00eancia vari\u00e1vel, demorando de 2 a 7 anos para voltar a ocorrer e intercalando-se com per\u00edodos de La Ni\u00f1a e de neutralidade. Os eventos costumam variar em intensidade. Houveram eventos muito intensos em 1997-1998 e 2015-2016. Foram secas, inunda\u00e7\u00f5es e doen\u00e7as em todo o mundo, com danos e preju\u00edzos da ordem de bilh\u00f5es de d\u00f3lares.<\/p>\n\n\n\n<p>Os efeitos do El Ni\u00f1o podem variar bastante nas distintas regi\u00f5es do globo e mesmo no Brasil, onde, pelas grandes dimens\u00f5es territoriais, podemos encontrar uma grande diversidade de condi\u00e7\u00f5es locais, tais como relevo e topografia, que levam a respostas diferenciadas do fen\u00f4meno. O Nordeste e o Norte do Brasil s\u00e3o mais propensos a secas durante El Ni\u00f1o, enquanto o Sul e o Sudeste s\u00e3o mais propensos a chuvas mais intensas.<\/p>\n\n\n\n<p>Localizada na faixa de transi\u00e7\u00e3o entre o clima tropical e o clima subtropical, a regi\u00e3o Centro-Oeste se comporta de maneira mais pr\u00f3xima ao que ocorre no Sul do Brasil, entretanto, geralmente esses efeitos tendem a ser menos intensos. Esse tamb\u00e9m \u00e9 o panorama de Mato Grosso do Sul, estado pertencente a essa regi\u00e3o. Os efeitos na agricultura e pecu\u00e1ria s\u00e3o particularmente importantes em MS, dada a participa\u00e7\u00e3o dessas atividades na economia local.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00cdndice Oce\u00e2nico Ni\u00f1o 3.4 \u00e9 um dos principais indicadores de El Ni\u00f1o. Ele \u00e9 calculado com base nas temperaturas da superf\u00edcie do Oceano Pac\u00edfico equatorial, na regi\u00e3o entre a costa do Equador e a Polin\u00e9sia Francesa. De acordo com a Organiza\u00e7\u00e3o Meteorol\u00f3gica Mundial (OMM), s\u00e3o necess\u00e1rios tr\u00eas trimestres consecutivos com anomalia acima de 0,5 \u00b0C para declarar oficialmente El Ni\u00f1o. A publica\u00e7\u00e3o do valor da anomalia de temperatura do \u00faltimo trimestre (Junho-Julho-Agosto)1 confirmou que teremos uma safra de ver\u00e3o sob efeitos do El Ni\u00f1o. Desde 2001, essa ser\u00e1 a oitava safra de ver\u00e3o cultivada sob efeitos de El Ni\u00f1o.<\/p>\n\n\n\n<p>Os poss\u00edveis impactos negativos que preocupam os agricultores s\u00e3o decorrentes do excesso de chuvas, que podem impedir opera\u00e7\u00f5es de manejo e tratos culturais, e temperaturas excessivamente altas, que podem afetar diretamente a fisiologia e produ\u00e7\u00e3o das culturas. A combina\u00e7\u00e3o do aumento das chuvas e temperaturas pode favorecer pragas e doen\u00e7as, exigindo maior aten\u00e7\u00e3o e controle. Mesmo com o aumento dos volumes totais precipitados, ainda existe a preocupa\u00e7\u00e3o com veranicos em per\u00edodo de El Ni\u00f1o. Isso porque \u00e9 not\u00e1vel a m\u00e1 distribui\u00e7\u00e3o das chuvas nesses per\u00edodos, com o agravamento de temperaturas mais elevadas.<\/p>\n\n\n\n<p>O impacto econ\u00f4mico da ocorr\u00eancia de El Ni\u00f1o deve-se tanto \u00e0 redu\u00e7\u00e3o potencial da produ\u00e7\u00e3o (inclusive por perdas na colheita), como pelo encarecimento dos insumos necess\u00e1rios e pr\u00e1ticas agr\u00edcolas adotadas (como controle de pragas e doen\u00e7as). Em qualquer caso, espera-se um incremento no custo de produ\u00e7\u00e3o por tonelada produzida.<\/p>\n\n\n\n<p>A Tabela 1 re\u00fane informa\u00e7\u00f5es das safras de soja cultivadas em Dourados sob El Ni\u00f1o, desde 2001. Esta tabela relvela que certa estabilidade da produ\u00e7\u00e3o, sendo pouco comum encontrarmos redu\u00e7\u00f5es dr\u00e1sticas. Apesar disto, o incremento produtivo n\u00e3o acompanha a maior oferta h\u00eddrica.<\/p>\n\n\n\n<p>Tabela 1: Safras de soja cultivadas em Dourados sob El Ni\u00f1o<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-table is-style-regular\"><table class=\"has-subtle-pale-blue-background-color has-fixed-layout has-background\"><thead><tr><th class=\"has-text-align-center\" data-align=\"center\">Safra sobre el Nino<\/th><th>Chuva no ciclo (mm)<\/th><th>Chuva na fase reprodutiva (mm)<\/th><th>Produtividade IBGE * (kg\/ha)<\/th><\/tr><\/thead><tbody><tr><td class=\"has-text-align-center\" data-align=\"center\">2002-2003<\/td><td>922,6<\/td><td>429,9<\/td><td>2799<\/td><\/tr><tr><td class=\"has-text-align-center\" data-align=\"center\">2004-2005<\/td><td>765,8<\/td><td>318,8<\/td><td>1800**<\/td><\/tr><tr><td class=\"has-text-align-center\" data-align=\"center\">2006-2007<\/td><td>702,2<\/td><td>463,8<\/td><td>2800<\/td><\/tr><tr><td class=\"has-text-align-center\" data-align=\"center\">2009-2010<\/td><td>1074,4<\/td><td>543,1<\/td><td>3120<\/td><\/tr><tr><td class=\"has-text-align-center\" data-align=\"center\">2014-2015<\/td><td>572,8<\/td><td>200,2<\/td><td>3000<\/td><\/tr><tr><td class=\"has-text-align-center\" data-align=\"center\">2015-2016<\/td><td>1310,6<\/td><td>567,6<\/td><td>3300<\/td><\/tr><tr><td class=\"has-text-align-center\" data-align=\"center\">2018-2019<\/td><td>929,4<\/td><td>235,5<\/td><td>3000<\/td><\/tr><tr><td class=\"has-text-align-center\" data-align=\"center\">M\u00e9dia El Ni\u00f1o<\/td><td>896,8<\/td><td>394,1<\/td><td>2831<\/td><\/tr><tr><td class=\"has-text-align-center\" data-align=\"center\">2001-2023<\/td><td>726,5<\/td><td>339,8<\/td><td>2756<\/td><\/tr><tr><td class=\"has-text-align-center\" data-align=\"center\">Impacto do El Ni\u00f1o***<\/td><td>23,4%<\/td><td>16,0%<\/td><td>2,7%<\/td><\/tr><tr><td class=\"has-text-align-center\" data-align=\"center\"><\/td><td><\/td><td><\/td><td><\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure>\n\n\n\n<p>Notas:<\/p>\n\n\n\n<p>* Dados do levantamento da Produ\u00e7\u00e3o Agr\u00edcola Municipal (PAM\/IBGE) para Dourados\/MS;<br> ** A produtividade para a safra 2004\/2005 reflete um ano com bom volume total precipitado, mas com m\u00e1 distribui\u00e7\u00e3o e condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis para o desenvolvimento da ferrugem asi\u00e1tica.<br> *** Impacto relativo proporcionado pelo El Ni\u00f1o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00e9dia de todos os anos no per\u00edodo avaliado (2001 a 2023).<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Prevenir os efeitos do El Ni\u00f1o \u00e9 uma tarefa dif\u00edcil, uma vez que esse fen\u00f4meno clim\u00e1tico \u00e9 natural e sua ocorr\u00eancia est\u00e1 fora do controle humano. Mas podemos lan\u00e7ar m\u00e3o de estrat\u00e9gias para reduzir ou mitigar os impactos negativos causados por ele. Muitas t\u00e9cnicas podem requerer um planejamento e a\u00e7\u00e3o a longo prazo, tal como a ado\u00e7\u00e3o de sistemas mais sustent\u00e1veis e resilientes, a exemplo do plantio direto. Um solo mais estruturado e protegido pela palhada torna-se menos suscept\u00edvel aos efeitos indesejados ou inesperados do clima.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Manejo<\/strong> &#8211; Contudo, a ideia neste artigo consiste em nos determos as medidas de curto prazo. Nesse \u00e2mbito, uma primeira preocupa\u00e7\u00e3o que surge refere-se \u00e0 conserva\u00e7\u00e3o do solo. Diante de um cen\u00e1rio de chuvas intensas, seria mais adequado evitar ou adiar pr\u00e1ticas agr\u00edcolas que possam desestruturar o solo, tais como ara\u00e7\u00e3o, subsolagem ou escarifica\u00e7\u00e3o. A manuten\u00e7\u00e3o de palhada tamb\u00e9m seria desej\u00e1vel. Inspe\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o de terra\u00e7os tamb\u00e9m \u00e9 uma pr\u00e1tica desejada nesse contexto.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma outra estrat\u00e9gia \u00e9 o plantio escalonado, utilizando mais de uma data de plantio e com intervalo de alguns dias entre elas. Com partes da lavoura em diferentes est\u00e1dios de desenvolvimento existe maior chance de escapar de eventos indesejados, como uma seca no per\u00edodo cr\u00edtico ou chuva na colheita.<\/p>\n\n\n\n<p>Seguir as recomenda\u00e7\u00f5es do Zoneamento Agr\u00edcola de Risco Clim\u00e1tico (ZARC) \u00e9 outra a\u00e7\u00e3o a ser tomada. O ZARC indica \u00e9pocas com maior chance de sucesso, independentemente da ocorr\u00eancia de El Ni\u00f1o ou La Ni\u00f1a.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, numa situa\u00e7\u00e3o de El Ni\u00f1o, deve-se acompanhar atentamente as previs\u00f5es de tempo para programar os tratos culturais. Deve-se estar atento para n\u00e3o atrasar as pulveriza\u00e7\u00f5es de fitossanit\u00e1rios, especialmente porque nesse cen\u00e1rio doen\u00e7as e pragas tendem a se intensificar. Outra preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 com a pr\u00e1tica de desseca\u00e7\u00e3o para colheita, que n\u00e3o deve ser realizada antes de per\u00edodos de chuva.<\/p>\n\n\n\n<p>No geral, El Ni\u00f1o \u00e9 um fen\u00f4meno clim\u00e1tico complexo que pode ter impactos significativos na agricultura. \u00c9 importante estar ciente que os riscos da agricultura s\u00e3o maiores durante esse fen\u00f4meno, para adotar estrat\u00e9gias que reduzam seus efeitos negativos.<\/p>\n\n\n\n<p>Para saber mais:<br> Site do <a rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"Centro de Previs\u00e3o do Clima (CPC) (abre numa nova aba)\" href=\"https:\/\/origin,cpc,ncep,noaa,gov\/products\/analysis_monitoring\/ensostuff\/ONI_v5,php\" target=\"_blank\">Centro de Previs\u00e3o do Clima (CPC)<\/a> da Administra\u00e7\u00e3o Nacional Oce\u00e2nica e Atmosf\u00e9rica (NOAA), com publica\u00e7\u00e3o do \u00cdndice Oce\u00e2nico Ni\u00f1o (ONI) na regi\u00e3o Ni\u00f1o 3.4 (\u00e1rea entre 5\u00b0S e 5\u00b0N de latitude e 120\u00b0 a 170\u00b0W de longitude).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u00c9der Comunello, Rodrigo Arroyo Garcia, Danilton Luiz Flumignan, Carlos Ricardo Fietz<\/strong> (Pesquisadores)<br> Embrapa Agropecu\u00e1ria Oeste<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Contatos para a imprensa<\/strong><br>agropecuaria-oeste.imprensa@embrapa.br<br><strong>Telefone<\/strong>: (67) 99944-9224<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>El Ni\u00f1o \u00e9 um fen\u00f4meno clim\u00e1tico natural caracterizado pelo aquecimento anormal das \u00e1guas do Oceano Pac\u00edfico Equatorial. 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